Passadas as eleições, resta uma pergunta curiosa: o que Nikolas Ferreira e André Janones têm em comum? Além do destaque nas redes sociais de campos políticos opostos, ambos são deputados federais e podem apresentar emendas ao orçamento. Mas você sabe para onde foram os recursos dessas emendas?
Os dados das emendas individuais de 2025 e 2026 mostram diferenças nas áreas atendidas, nos municípios beneficiados e nos valores pagos. Vamos aos números.
Nikolas: R$ 49,9 milhões em 79 municípios
As emendas de Nikolas somam R$ 49,9 milhões pagos no recorte analisado, com repasses a 79 municípios, além de outros destinatários. A saúde concentra R$ 20,5 milhões, seguida pelas emendas Pix, com R$ 16,6 milhões, e pela assistência social, com R$ 9,8 milhões.
Entre os municípios, Belo Horizonte lidera, com R$ 7,4 milhões. Considerando também o governo estadual, Minas Gerais aparece como o maior recebedor isolado, com R$ 8,6 milhões.

Janones: R$ 62,6 milhões, 68% deles na saúde
As emendas de Janones totalizam R$ 62,6 milhões pagos, dos quais R$ 42,8 milhões, aproximadamente 68%, estão na saúde. As emendas Pix somam outros R$ 16,4 milhões. Os repasses alcançam 40 municípios, com Sabará e Igarapé à frente, recebendo R$ 5,6 milhões e R$ 5 milhões, respectivamente. Ituiutaba não aparece entre os destinos dos pagamentos neste recorte.

Empenhado não é o mesmo que pago
Nas emendas analisadas, Nikolas apresenta R$ 69,5 milhões empenhados, com 72% pagos; Janones, R$ 76,3 milhões, com 82% pagos. O custeio da saúde e as emendas Pix representam, juntos, 72% do empenhado de Nikolas e 85% do de Janones.
Essa diferença entre empenho e pagamento precisa ser considerada: parte dos valores ainda pode ser executada, especialmente porque os dados de 2026 são parciais.

O que as emendas financiam
Além da saúde, as destinações revelam perfis diferentes. Nos planos das emendas Pix de Nikolas, destacam-se segurança pública e educação; nos de Janones, estradas, pavimentação, eventos e serviços urbanos. Há também pagamentos para assistência social, no caso de Nikolas, e projetos culturais, no de Janones.
- Nikolas: escolas, com carteiras, apostilas, mochilas e reformas (R$ 6,1 milhões); armas, munição e estandes de tiro (R$ 4,8 milhões); viaturas da PM, da Polícia Civil e dos Bombeiros (R$ 3,8 milhões); drones, base móvel e equipamentos de segurança (R$ 1,9 milhão).
- Janones: estradas vicinais, asfalto e calçamento (R$ 12,7 milhões); shows, festas e eventos (R$ 2,5 milhões); ônibus, vans e máquinas (R$ 2,2 milhões); limpeza urbana e iluminação (R$ 1,9 milhão).
Atenção à leitura: os objetos dos planos de ação indicam aplicações previstas e incluem parcelas ainda não pagas. Não comprovam, por si só, que os bens ou serviços já foram entregues.

Onde o dinheiro chegou
O mapa mostra os repasses de Nikolas distribuídos por um número maior de municípios, enquanto os de Janones apresentam concentração na Grande BH e no Triângulo.

Considerando somente os pagamentos a municípios, a mesorregião Metropolitana de Belo Horizonte concentra a maior parcela dos recursos de ambos: 34,7% dos de Nikolas e 29,3% dos de Janones. A diferença mais acentuada está no Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba, com 4,7% e 27,6%, respectivamente. Já o Sul e Sudoeste de Minas representam 15,1% dos repasses de Nikolas e 9,3% dos de Janones.

Quanto cada município recebeu
Nikolas alcança mais municípios, com valores geralmente menores: 60 dos 79 receberam entre R$ 100 mil e R$ 500 mil. A mediana dos repasses é de R$ 300 mil, contra R$ 915 mil nos municípios atendidos por Janones, aproximadamente o triplo. A mediana ajuda a enxergar o valor central da distribuição sem que poucos repasses muito elevados, como os de Belo Horizonte e Sabará, dominem a comparação.

Quando o dinheiro saiu
Maio e junho de 2026 concentraram R$ 16,2 milhões em pagamentos das emendas de Nikolas e R$ 28,6 milhões das de Janones, equivalentes a 32% e 46% dos respectivos totais analisados. O gráfico mostra uma concentração temporal dos pagamentos; sozinho, esse padrão não demonstra motivação eleitoral nem irregularidade.

Como os números foram levantados
- Fonte: Portal da Transparência (CGU), com dados até 22/10/2026. Foram consideradas as emendas individuais de autoria de cada deputado nas LOAs de 2025 e 2026. Emendas de bancada e de comissão ficam de fora.
- Valor pago: pagamentos do exercício mais restos a pagar pagos. Função, programa e ação vêm da classificação funcional-programática de cada emenda.
- Destino e data: saem dos documentos de pagamento. Repasses fundo a fundo pagos via Banco do Brasil foram atribuídos pelos empenhos aos fundos municipais. Documentos que cobrem várias emendas foram rateados: o total de cada emenda é exato, e o valor por município é aproximado.
- Objetos das emendas Pix: planos de ação no Transferegov. O município foi identificado pelo CNPJ do favorecido; as mesorregiões e a malha municipal são do IBGE.
- Calendário eleitoral: repasses fundo a fundo da saúde e transferências especiais não são transferências voluntárias. A data de 4 de julho marca o calendário eleitoral (Lei 9.504/97, art. 73, VI, a), e não uma proibição aplicável a esses repasses.

